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24 de nov de 2008

OS NOVOS SUPER PODERES DE HOLLYWOOD

Depois de alguns anos no limbo cinematográfico, os heróis de quadrinhos cada vez mais ocupam seu lugar em Hollywood e no gosto do público






N
ão estaria exagerando ao afirmar que existem muitas semelhanças entre William Shakespeare e Bob Kane. Ambos criaram mitos que inspiram gerações e possuem a dádiva da imortalidade.
O príncipe Hamlet já foi interpretado das mais diversas formas, sempre sendo reinventado. O mesmo pode-se dizer da célebre criação de Bob Kane: Batman, o Cavaleiro das Trevas.
Existe apenas uma grande diferença entre os dois criadores: O respeito que lhes é concedido pelo grande público.
Enquanto Shakespeare é sempre citado com merecida pompa pelos expoentes da sociedade, o criador de Batman só é lembrado pelos fãs.


Levando-se em consideração este “marginalismo” ao qual as revistas em quadrinhos sempre foram relegadas, fica fácil de entender a razão pela qual uma adaptação para o cinema deste mundo considerado “menor” sempre foi motivo de polêmica.
Durante as décadas de 40, 50 e 60, heróis como Batman, Zorro e Flash Gordon ganharam espaço em séries de TV. Na maioria dos casos sem muita qualidade ou fidelidade com a essência dos quadrinhos. Destaque para a série: “Batman”(1966), com Adam West e Burt Ward, onde o psicodelismo da época transformou o sombrio herói em um carnaval de cores e piadinhas deslocadas.
Vale salientar que no mesmo período foi realizado um filme para cinema, intitulado: “Batman – O Homem-Morcego”. Com direito a um Bat-Repelente de tubarão e uma seqüência hilária, onde o cruzado encapuçado tenta se livrar de uma bomba prestes a detonar, desviando de casais enamorados, carrinhos de bebê e uma freira.
A década de 70 trouxe algumas oportunidades melhores para os heróis na tela pequena. A série do Homem-Aranha durou apenas 15 episódios, para a felicidade dos fãs. O escalador de teias era interpretado por Nicholas Hammond em um show de “defeitos” especiais. Peter Parker não era um adolescente tímido, mas sim um trintão com pinta de galã de novela mexicana... não precisa nem dizer que toda a razão do aracnídeo existir já havia descido pelo ralo.
Era notório o pavor dos produtores de se entregarem completamente ao conteúdo criado nas histórias em quadrinhos.
A década não foi só de fracassos, houve a bem sucedida adaptação protagonizada por Bill Bixby e Lou Ferrigno: “O Incrível Hulk”. A série respeitava bastante a história dos quadrinhos, com a inclusão de alguns personagens e uma boa trilha sonora, com destaque para a melancólica “Lonely Man”, interpretada ao piano por John Harnel e que encerrava todos os episódios.
Como a censura da TV era muito restritiva, o gigante esmeralda não causava muito estrago, apenas arremessava os vilões e grunhia.
O episódio piloto e o primeiro episódio da segunda temporada da série: “Casado”, são os melhores. Inclusive, o episódio “Casado” foi um marco nas adaptações de quadrinhos, pois foi o primeiro episódio de uma série do gênero a receber um prêmio EMMY em uma categoria não-técnica, o de melhor atriz concedido a Mariette Hartley que interpreta a namorada do herói.
O maior passo na solidificação do gênero no cinema foi dado em 1978, quando um jovem diretor chamado Richard Donner escalou Christopher Reeve com a missão de fazer-nos acreditar que o homem podia voar.


O épico “Superman” contava com um elenco de estrelas encabeçado pelo lendário Marlon Brando (era notória a tentativa dos produtores de amealhar respeito e dignidade à produção). O roteiro não apenas respeitava a história criada nos quadrinhos, como adicionava elementos, que de tão bons, foram posteriormente agregados ao universo do herói nos gibis.
Com o auxílio impecável do maestro John Williams na criação da melhor trilha sonora para um super-herói já criada, o filme foi um sucesso arrebatador nos cinemas. Pela primeira vez na história, um filme baseado em um personagem criado nos quadrinhos havia voado tão alto.
Não tão alto foi o vôo da Supergirl, que em 1984 tentou uma carreira solo no cinema. Interpretada pela linda Helen Slater, com o apoio de um Peter O´Toole visivelmente descontente, a prima de Superman enfrentava uma exagerada Faye Dunaway. A produção teve méritos, como as cenas de vôo, as melhores apresentadas até aquele momento, porém o roteiro fraco fez com o filme fracassasse nas bilheterias, afundando de vez a franquia de Superman.
Christopher Reeve ainda tentou levar o personagem de volta às telas em 1987, no asqueroso: “Superman 4 – Em Busca da Paz”.
A produção era tão mambembe que os produtores obrigaram o diretor a cortar mais de 40 minutos do filme original, tornando o produto final uma “salada” de idéias absurdas e fendas narrativas. O que dizer da cena onde Superman carrega nos braços Mariel Hemingway em um passeio pelo espaço sideral?
Um ano antes, em 1986, outro herói foi levado às telonas: “Howard – O Pato”. Com produção de George Lucas e a presença de Lea Thompson ( da trilogia “De Volta para o Futuro”) o filme é considerado atualmente a pior adaptação já realizada. De quem foi a genial idéia de realizar um filme sobre o herói pato, mestre no “Quack – Fu”? Os adultos não suportaram a idéia e as crianças não se interessaram no humor subversivo e ácido dos quadrinhos originais.


É importante não esquecer que em 1982, o famoso guerreiro cimério criado por Robert E. Howard: “Conan, O Bárbaro” também foi transportado para o cinema. Com o novato Arnold Swarzennegger no papel principal, o filme dirigido por John Milius conseguiu passar com veracidade a violência e erotismo inerentes à obra de Howard. Porém sua continuação realizada anos depois: “Conan, O Destruidor” foi um fracasso retumbante!
A redenção chegaria em 1989, com o sombrio: “Batman” de Tim Burton. Com um roteiro que tomava algumas liberdades quanto às páginas idealizadas por Bob Kane, o filme foi um inesperado sucesso comercial.
O vilão Coringa, interpretado por Jack Nicholson, tornou-se por muitos anos no inconsciente coletivo dos fãs, a face do personagem. Já o personagem título não brilhou tanto. Michael Keaton não conseguiu trazer a tona os dilemas psicológicos do personagem, deixando transparecer apenas a figura simbólica do herói.
Com o sucesso vieram as seqüências, cada uma enfraquecendo mais ainda a essência do personagem. O “tiro de misericórdia” veio em 1997 com “Batman e Robin”. O filme dirigido por Joel Schumacher conseguiu destruir em 100 minutos o que a indústria dos quadrinhos tão esforçadamente havia conseguido alcançar nos últimos 30 anos.

Um ano antes, em 1996, o tradicional herói “Fantasma” foi catapultado para o estrelato no cinema em uma aventura de péssimo gosto, onde o ar cisudo e misterioso deu suas histórias foi substituído por uma festa de cores no estilo Indiana Jones. O fantasma que anda foi interpretado por Billy Zane, que uma semana antes da estréia do filme assumiu sua homossexualidade na TV. Não era exatamente o tipo de marketing que os produtores tinham em mente...logo, o filme naufragou nas bilheterias.
Em 1998 um herói menor conseguiu alguma notoriedade com o filme: “Blade – O Caçador de Vampiros”. O canastrão Wesley Snipes assegurou o melhor papel de sua carreira (o que não é dizer muito...) e fez com que os estúdios voltassem a ter interesse em produzir histórias do gênero.
Todos os filmes já citados foram de extrema importância para a construção do momento atual no qual estamos vivendo, porém o projeto que alavancou as adaptações de quadrinhos de um pequeno nicho para um gênero cinematográfico de forte apelo com o público foi “X-Men”(2000), dirigido pelo talentoso Bryan Singer.
A equipe de mutantes criada por Stan Lee protagonizou o maior sucesso daquele ano nos cinemas, trazendo inclusive muitas pessoas que nunca haviam lido as revistas em quadrinhos.
O diretor respeitou a história original, salientando os diversos pontos polêmicos e sub-tramas complexas, deixando espaço para as futuras continuações.
O ano de 2002 foi dominado pelo aracnídeo mais famoso dos quadrinhos. “O Homem-Aranha” de Sam Raimi conseguiu traduzir com perfeição o clima das aventuras iniciais do herói desenhadas por Stan Lee.
Em “X-Men 2” de 2003, o diretor Bryan Singer criou uma obra prima. Considerado por muitos a melhor adaptação dos quadrinhos para o cinema.
O personagem Wolverine ( interpretado por Hugh Jackman) tornou-se tão popular entre os cinéfilos quanto já o era entre os fãs dos gibis.

Outro filme que merece destaque é o asiático “Oldboy”, baseado no mangá de Garon Tsuchiya, o filme ganhou o grande prêmio do Júri no Festival de Cannes e é considerado por muitos cinéfilos como um dos melhores filmes dos últimos anos.
No mesmo ano, dois personagens também ganharam espaço nas telonas.
“O Demolidor” interpretado por Ben Affleck foi um fracasso, mais pelas escolhas de elenco que pelo roteiro. O personagem enigmático tão ricamente desenvolvido nos quadrinhos não merecia aquela cena de “luta/balé” contra Elektra ( Jennifer Garner). Dirigido no “automático” por Mark Steven Johnson, o projeto é cheio de clichês mal utilizados e um final em aberto, que provavelmente nunca receberá uma continuação.

Já o “Hulk” de Ang Lee merece mais do que recebeu dos fãs. O diretor transformou o gigante verde em um personagem complexo, cheio de angústia. Para o público que anseava por uma destruição em massa, uma enorme decepção.
O ano de 2004 trouxe de volta o herói aracnídeo em sua melhor aventura nos cinemas, porém também resgatou do limbo uma descaracterizada “Mulher-Gato”. Halle Berry quase viu sua carreira afundar com esta adaptação.
Outro herói que mereceu uma adaptação foi “Hellboy”, criado por Mike Mignola. O diretor Guillermo Del Toro viria a realizar dois anos depois sua obra-prima: “O Labirinto do Fauno”.
No mesmo ano, o “Justiceiro” obteve uma segunda chance ( a primeira nos anos 80, em um filme horrendo com Dolph Lundgren) sendo interpretado por Thomas Jane. O vilão é interpretado por John Travolta em atuação caricata.
Mesmo sendo mais fiel aos quadrinhos (impossível ser diferente, posto que nem o símbolo do herói, a caveira no peito, havia no filme anterior) o projeto careceu de um roteiro melhor. A violência que é a marca do personagem teve de ser cortada para que o filme pudesse ser visto pelas crianças... mas como? “O Justiceiro” não é um quadrinho para crianças!!
A ganância de Hollywood destruiu as expectativas dos fãs e o filme fez um sucesso pífio.
O ano de 2005 foi muito bom para o gênero, o filme “V de Vingança” baseado na obra de Alan Moore redimiu novamente os fãs dos quadrinhos em uma adaptação esmerada.
O mesmo pode-se dizer do filme “Sin City – A Cidade do Pecado” do mesmo ano. A obra do genial Frank Miller foi transposta com exatidão de detalhes em um filme maravilhoso, dirigido por Robert Rodriguez.


Porém a maior surpresa dos últimos anos foi a adaptação de Christopher Nolan para o mito Batman. Seu “Batman Begins” conseguiu o impossível: trouxe realidade para o mundo gótico do herói atormentado, com uma interpretação primorosa de Christian Bale.
Na Gotham City mais verossímil já contemplada, temos a oportunidade de ver um herói em evolução, um equilíbrio perfeito entre cenas de ação e diálogos bem construídos.
Sua recente continuação, “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, tornou-se simplesmente a melhor adaptação de quadrinhos para o cinema.
Já que comecei o texto falando do personagem criado por Bob Kane, é justo que eu termine “fechando este círculo”. A história de como os quadrinhos foram transportados para o cinema não pode ser discutida levianamente. Deve-se notar a evolução nos comprometimentos com roteiros cada vez mais fiéis às obras e a busca por melhores diretores.
De séries de TV feitas às pressas até um filme campeão de bilheteria como “The Dark Knight” existem muitas “páginas e onomatopéias” pela frente, o mundo dos quadrinhos ainda tem muito a oferecer aos cinéfilos e a “arte-final” ainda está muito longe de ser completada.

Veja a abertura do seriado do Homem-Aranha:



Veja nosso especial sobre o Homem-Morcego aqui e aqui

4 Comentários:

leonardo garcia disse...

Muito bacana este apanhado do gênero.
Como fã de HQ´s desde criança, fico muito feliz em ver a atenção dada a filmes até, menores.
Parabéns ao blog!!

Giovana Vincenzi disse...

EXCELENTE post!!!
Parabéns!! :oD

gabriel n. disse...

Achei muito bem escrito, muita informação útil.
Os quadrinhos nunca receberam o respeito que merecem, porém os considero obras de arte, quando bem feitos!

Cris Viana disse...

Nossa!Estou fazendo um "tour" pelo Blog(tem um tempinho que não dou uma olhada geral nele...)Neste mes de novembro vocês também "estouraram a boca do balão"!!!Assuntos bem escolhidos e bem escritos.Parabéns pelo esforço,dedicação e competência de vocês!!Vocês são 10 !!!!

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