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8 de dez de 2008

QUEM SOUBER QUE CONTE OUTRA

Depois da era de ouro dos anos 70, 80 e parte dos 90, a teledramaturgia amarga baixos índices no ibope e padece na falta de criatividade de seus autores

Por André Moreira

Foi-se o tempo em que a telenovela movia corações, mudava comportamentos e marcava 100% no ibope. Agora a história é outra. Um produto exportado de nossos conterrâneos latinos - muitos pensam ser de exclusiva criação brasileira - a telenovela brasileira teve seus primórdios nos longíncuos anos 50 com Sua Vida Me Pertence, esta talvez um protótipo que serveria de molde para o que estava por vir, um vez que era apresentada em apenas dois capítulos semanais, seguida nos anos 60 por aquela que tem o título de primeira telenovela brasileira, 2-5499 Ocupado, A primeira a ir ao ar diariamente, assim como é até hoje. A novela trouxe como protagonistas dois ídolos absolutos do gênero, o casal Tarcísio Meira e Glória Menezes.

No anos seguintes tramas como Selva de Pedra, Carinhoso, O Bem Amado, Pecado Capital, Dancing Days, Guerra dos Sexos, Roque Santeiro, Vale Tudo, só para citar algumas, angariavam cada vez mais público, pavimentando o caminho com histórias cada vez mais elaboradas, realistas e por vezes com um humor farsesco e irônico. Muitos se enxergavam na pequena tela, emocionavam-se, riam, envolviam-se. As novelas citadas e outras mais fortaleceram a Rede Globo e a colocaram no patamar de fábrica de sonhos e são seu principal produto de exportação até hoje. A Vênus Platinada, como alguns apelidaram a emissora carioca, deu certo onde outras falharam, como as extintas Tupi, Excelsior e Manchete. E hoje outras como a Record tentam conseguir sua fatia do bolo.

De lá pra cá muita coisa mudou. Se naquela época as poucas emissoras eram um ponta de ameaça, hoje o problema é outro. A falta de criatividade. Com a proximidade da chegada de mais uma novela de Glória Perez, discípula de Janete Clair, apesar de ser dona de um estilo totalmente diferente, me pergunto se sua Caminhos da Índia não revisita personagens de outra trama sua, a laureada O Clone, que colocou Giovana Antonelli no patamar de protagonista que está hoje. Na nova trama a mocinha prometida a um rapaz se apaixona por outro de uma cultura totalmente diferente. A mesma premissa de O Clone. É aí que mora o perigo. O público vai comprar esse novo produto? A história de Jade e Lucas ainda está fresca no imaginário do telespectador e comparações surgirão com certeza. A emissora que antes ousava em histórias originais agora se arrisca na mesmice e pode padecer no ibope como tem sido de costume.



É verdade que com A Favorita de João Emanuel Carneiro a emissora bem que tentou e isso era natural. O autor fez bonito em suas duas histórias para o complicado horário das sete, Da Cor do Pecado e Cobras e Lagartos e isso o credenciou a subir para o time do horário nobre. Mas ao contrário de suas tramas anteriores, a história de Donatela, Flora e cia não emplacou e ficou longe do esperado. Mas o ponto positivo disso fica na tentativa de inovação. João fez duas novelas em uma, convidou os telespectadores a descobrir quem era a mocinha e quem era a vilã e fez a sequência da revelação logo nos primeiros capítulos e depois entrou em outra trama em estilo de suspense policial. O autor escreve bem, cria ganchos inusitados, mas limitou sua história a poucos personagens, colocando atores por vezes protagonistas no papel de coadjuvantes de apoio.



Talvez seja a hora de olhar em volta. A Vênus tem acertado em outras searas da teledramaturgia com miniséries, séries e especiais, onde a ousadia permanece e ainda é vindoura. Luis Fernando Carvalho é a prova disso. Experimental em tudo que faz ele agora dá sua visão a uma obra de Machado de Assis, Dom Casmurro. Sua Capitu estréia cheia de expectativa e repleta de requinte, como em outras obras televisivas com sua assinatura, como Hoje É Dia de Maria. Requinte as telenovelas possuem, só falta agora uma boa pitada de originalidade.

1 Comentários:

Giovana Vincenzi disse...

Excelente post.

Acrescento à falta de autores brilhantes - como foram Dias Gomes e Janet Clair - a falta de ATORES talentosos nos folhetins.

O comprometimento comercial da teledramaturgia foi longe demais e, agora, virou entretenimento vazio. Há alguns anos atrás, a qualidade dos profissionais transparecia pelo menos um pouco de arte.

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