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22 de jan de 2009

A SOMBRA DO VAMPIRO


Mesmo apoiado no sucesso do fraco e ensosso Crepúsculo (Twilight), os vampiros mantêm acessa sua força e continuidade no cinema

Por Octavio Caruso

Dentre todas as lendas criadas pelo homem na vã tentativa de tentar entender a si mesmo, por meio do fantástico e da fantasia, talvez a criação de base mais sólida foi a dos vampiros. Sólida pois se baseia em muito na realidade.
Desde o início do século passado o personagem foi citado na literatura, por nomes como Samuel Taylor Coleridge ( em 1797) e John Polidori em sua obra “The Vampyre” lançada em 1919.
Porém foi nas mãos hábeis do irlandês Bram Stoker que o mito do vampiro se desenvolveu e imortalizou-se.
Lançado em 1897, o seu livro Dracula tornou-se um sucesso imediato em um mundo sem as facilidades tecnológicas atuais.
O personagem foi livremente baseado no conde Vlad Tepes que nasceu em 1431 e governou o território que, hoje em dia, corresponde a Romênia. Famoso por sua crueldade para com seus inimigos, obtinha prazer em comer perante seus inimigos empalados, tendo como trilha sonora seus gritos desesperados.
Bram Stoker criou um amálgama de referências utilizando o verdadeiro conde e o medo que ele incitava na população da época, incluindo também uma veia religiosa.
Drácula foge do crucifixo, por tratar-se da representação secular de servidão hipócrita, assim como teme a água-benta. O vampiro representa a liberdade do mundo. Não é de se surpreender que o mito tenha se tornado tão popular ao longo do tempo, pelo simples fato de questionar as crenças divinas e se opor a uma vida solitária, pois ele busca o amor, um que transcende barreiras de tempo e espaço. Quantos jovens insatisfeitos e rebeldes não simpatizam com esta idéia?


No cinema, o vampiro teve a chance de se expandir e progredir. Sua primeira aparição foi no fantástico filme mudo “Nosferatu” de 1922, dirigido pelo alemão F.W. Murnau. Um clássico do expressionismo alemão (época onde o cinema “bebeu” da arte dos pintores, trazendo para os filmes ângulos e efeitos de iluminação únicos) a história baseou-se no livro de Bram Stoker, porém por motivos judiciais, o diretor teve que trocar o nome de todos os personagens.
A interpretação de Max Schreck como o conde, sempre à espreita, continua apavorante nos dias de hoje. Sua influência foi tão grande que criou-se a lenda de que Max seria, de fato, um vampiro real. Assistam e tirem suas próprias conclusões.


Em 1931, o diretor americano Tod Browning escalou o ator húngaro Bela Lugosi para interpretar a sua versão de Drácula. Sua versão continua sendo para muitos fãs a melhor (mesmo sendo a mais contida) interpretação do terrível conde.
O filme foi um grande sucesso para os estúdios da Universal, criando assim uma série de projetos de terror que ajudaram muito na construção, não só do gênero, como do cinema. Filmes como “Frankenstein” e “A Múmia” foram realizados graças ao sucesso comercial do vampiro.
Bela Lugosi tinha um carisma e uma presença em cena insuperáveis, que inspirava temor mesmo quando calado.
Durante os anos 40, muitos filmes foram feitos se utilizando do mito, porém sempre tentando imitar o sucesso de Lugosi, por vezes em execráveis projetos.
A redenção chegou em 1958, quando os ousados criadores dos estúdios Hammer (que produziam filmes de baixo orçamento, porém bastante criativos) decidiram revitalizar o personagem no filme “Horror of Dracula” (O Vampiro da Noite). Para interpretar o conde, o segundo melhor vampiro do cinema: Christopher Lee. Sua altura e porte de cavalheiro inglês trouxeram novo fôlego ao gênero. Seu embate com o Van Helsing, interpretado por Peter Cushing entrou para a história do cinema.
Como se poderia esperar, seu sucesso trouxe muitas continuações e filmes semelhantes, porém nenhum superou a primeira incursão da Hammer.
Nos anos 60, talvez o único filme que mereça destaque seja a estréia do diretor italiano Mario Bava, em “Black Sunday” (A Máscara de Satã). Deixando um pouco de lado o personagem de Bram Stoker, Bava baseou seu filme no conto vampiresco russo: “The Vij” de Nikolai Gogol. A atriz Bárbara Steele e seus enormes e lindos olhos ficaram para sempre impressos nas retinas dos fãs de horror. Steele interpreta uma bruxa que ao ser assassinada pela inquisição (tendo recebido a máscara de tortura, coberta de pregos, por seus algozes), retorna após 200 anos como uma vampira, tomar o corpo de sua descendente (também interpretada por Steele). “Black Sunday” continua sendo um marco do cinema de horror italiano e uma prova de que o mito do vampiro transcendeu todas as barreiras geográficas.
Após um longo período de descanso, o imortal vampiro retornou tímido nos anos 80, em filmes medianos, como “A Hora do Espanto” e “Os Garotos Perdidos”, mas também em obras mais refinadas como ” Fome de Viver”(com Susan Sarandon e David Bowie). Nenhum destes, obras-primas, porém ajudaram a manter na mente dos fãs a onipresença do ser mítico.
O personagem só iria retornar em grande estilo, com a direção talentosa de Francis Ford Coppola (de “O Poderoso Chefão”) em “Drácula, de Bram Stoker” de 1992.
O filme utiliza-se da história do conde Vlad Tepes, inserindo-o no contexto do livro clássico de Stoker, trazendo para o público a adaptação mais fiel da obra do escritor. Com a ajuda dos talentos de Gary Oldman (ensandecido como o vampiro) e a sobriedade genial de Sir Anthony Hopkins como seu eterno oponente, O professor Van Helsing. O projeto foi um enorme sucesso de público e crítica, que ajudou a levar o personagem mais próximo aos jovens da década de 90. criando assim um elo que se estende até os dias de hoje.
No mesmo ano, seguindo a trilha do filme de Coppola, um filme menor chamado “Buffy – A Caça-Vampiros” infantilizou um pouco o mito, porém foi o responsável pela criação de uma série de TV de sucesso entre os jovens.
Tanto a série como filme foram esforços louváveis porém diminuíram em muito o conceito profundo que o mito do vampiro vêm trazendo desde sua criação. Em suma, ao expor o personagem “à luz do dia”, banalizaram seus elementos primordiais, tornando-o mais acessível aos pré-adolescentes.
Porém, ainda haveria uma última oportunidade para o personagem mítico encher nossos olhos, foi quando em 1994 “Entrevista com o Vampiro” foi realizado.
Baseado no livro de Anne Rice, o filme dirigido por Neil Jordan conta a história de um vampiro do século dezoito (interpretado por Brad Pitt) que, nos dias atuais, fornece uma entrevista a um jornalista sensacionalista, contando como se tornou um vampiro e seu percurso sombrio ao longo das décadas.
Contando com uma atuação elogiada de Tom Cruise, o filme traz de volta a maturidade do tema, apoiado em uma ótima equipe técnica, que consegue traduzir em imagens a beleza do livro de Rice.
No final da década de 90, os vampiros tornaram-se quase sátiras de si mesmos em filmes como “Um Drink no inferno” e “Um vampiro no Brooklin”, com um Eddie Murphy completamente deslocado. Sua essência diluída ainda buscaria alento no bom filme de ação: “Blade- O Caçador de Vampiros”, com Wesley Snipes.
Na última década, infelizmente o mito se perdeu em meio a muitas cópias descaradas e sem nenhuma personalidade como: “A Rainha dos Condenados” e “Anjos da Noite”, até chegar ao mais recente filme a tratar do tema, “Crepúsculo”(Twilight).
Baseado no romance de Stephanie Meyer, o filme está sendo um fenômeno de público no mundo todo, porém como cinema é um retrato triste e desolador dos malefícios da infantilização de um mito do horror que existe desde 1797.
Em algum lugar, apoiado em sua janela, o vampiro espreita a sociedade aguardando a hora certa para voltar. Eterno, ainda merece muito mais do que os diretores da atualidade têm lhe oferecido.

Veja trailer de Dracula de Bram Stoker:



Veja trecho de Dracula com Bela Lugosi:



Veja cenas de Tom Cruise em Entrevista com o Vampiro:

7 Comentários:

Carlos Moura disse...

Me surpreendi com a qualidade do texto. Sempre fui fascinado por este tema, desde que li pela primeira vez os quadrinhos de vampiros. Parabéns ao blog pela escolha do tema e por sua ótima realização.

Suely disse...

Achei incrível esse passeio sobre a história do Vampiro...Vcs têm cada idéia genial!!!De todos os filmes de terror,os que falam de Vampiros(Drácula) são os melhores...Quantas vezes,eu sentava no cinema e achava que,de repente,alguém lá de trás ia "morder meu pescoço" ! rsrsrs
Muito legal mesmo !!! Parabéns !!

tatiana vellasquez disse...

Amoooooooooooooo entrevista com o vampiro!!!!!!!!!!!
Já li quase todos os livros da Anne Rice e fico muito feliz pelo blog ter dado a importância merecida desta obra.
O legal é que no texto tem umas frases que são pequenas obras-primas, gostei muito do pararelo entre os vampiros e a afronta à igreja católica.
Parabéns ao Vertigo Pop pela matéria.

Duda Pellegrino disse...

Gosto muito deste genero de filmes...Mas não quero nem pensar no vampiro me espreitando na janela !! rsrsrs. Cruz credo!!!
Também estou esperando um ótimo filme de Drácula reaparecer no cinema.Daqueles que te deixam com um medo tão inquietante,que vc fica dormindo cobrindo-se até a cabeça e sai de casa, toda satisfeita ,com uma cruz enorme no pescoço e alho dentro do bolso !!!
A garotada de hoje em dia nem sabe direito o que são os vampiros...Pergunte quem foi o Conde Drácula? Conde quem??!!É uma pena!
Mas eles não têm culpa...É que Drácula virou "fichinha" perto do que fazem estes marginais que estão por aí...E eles aparecem de dia e de noite!...
Muito bom o texto,parabéns.

leo ruas disse...

Muito bom o tema, muito bom o texto. O blog vai continuar falando sobre os monstros do horror?? Queria muito ver um texto sobre os zumbis, o Lobisomem...seria bem interessante.

André Moreira disse...

em breve vamos fazer outros especias. fique atento Leo. abs e obrigado por acessarem o Vertigo Pop

tales rocha disse...

Bravo!!! Bravo!!! Jornalismo de primeira! Fluência narrativa, noção de timing, ritmo e estruturalmente perfeito. O tema é ótimo mas a execução ficou sublime! Vertigo Pop é melhor ainda quando vira Cult!

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