Top Ad 728x90

18 de ago de 2009

TERROR AO LONGO DO TEMPO

Com o retorno do diretor Sam Raimi ao gênero que o consagrou através de Arraste-me para o Inferno, resolvemos relembrar alguns clássicos do terror que marcaram época

Por Octavio Caruso

Atualmente o diretor Sam Raimi comparece nos cinemas brasileiros com o filme “Arrasta-me para o Inferno”, obtendo lucro nas bilheterias e sucesso entre os críticos, que afirmam estar presenciando o retorno da qualidade ao gênero do terror. É curioso notarmos que nem sempre, “qualidade” e “terror” caminharam juntos na boca dos críticos, trazendo para seus fãs um estigma cruel que se mostra duradouro, o de que o cinema de terror não pode ser considerado cinema de verdade, de arte.
A grande verdade é que esse gênero nasceu junto com a invenção dos irmãos Lumiére e se fez presente desde seus primeiros passos, em curtas-metragens baseados em sucessos literários, como o Frankenstein de Mary Shelley. Claro que com o passar das décadas, foi bastante ajudado pelos avanços técnicos e artísticos, porém sua essência é o que torna este filão algo memorável, o seu senso crítico e a total “irresponsabilidade” em demonstrá-lo! Nestes filmes nos vemos em nossa mais profunda realidade, nossas fraquezas expostas e feridas cutucadas, com o propósito de nos fazer questionar e divertir-nos. Em muitos dos exemplos que virão a seguir, ficará notório que em muitos casos o maior medo vêm, não dos monstros ou alienígenas, mas de nós mesmos, retratados fielmente ou em analogia.
Na década de 20, os primeiros filmes de terror começaram a nascer, com o Nosferatu de F.W. Murnau e a ajuda do expressionismo alemão. Mas foi na exibição de O Fantasma da Ópera (1925) que o gênero saiu nas manchetes de jornal da época, com o caso de pessoas que saíram horrorizadas do cinema ao assistirem a bela Christine retirar a máscara de um genial Lon Chaney, deixando visível o ótimo trabalho de maquiagem que desfigurava o trágico personagem criado por Gaston Leroux.
Na década de 30, os estúdios Universal começaram a fabricar filmes do gênero a “toque de caixa”, tentando satisfazer a demanda cada vez maior do público, na maioria dos casos em projetos fracos. O Drácula de Bela Lugosi era bom, mas não causava medo. O melhor filme do período, genuinamente de terror foi Frankenstein (1931) de James Whale, com Boris Karloff.
A década de 40 foi horrível para o filão, talvez eclipsado pelos terrores reais criados pela mão dos homens que combatiam na Segunda Guerra Mundial. Porém nos anos 50, um estúdio inglês sem muitos recursos inovou na área, fazendo releituras dinâmicas dos clássicos criados duas décadas antes pela Universal. Foi nos estúdios Hammer que o Drácula de Bram Stoker conheceu seu melhor intérprete: Christopher Lee. O filme O Vampiro da Noite (1958) fez tanto sucesso que obteve muitas seqüências e cópias descaradas ao longo da década. Um ano depois um criativo diretor chamado William Castle inovava ao inserir esqueletos que caíam em cima do público nos cinemas, nas exibições de seus filmes, sendo o seu melhor trabalho: A Casa dos Maus Espíritos (1959), com Vincent Price participando deste ótimo conto sobre casas mal assombradas. Era uma produção barata, mas devido ao seu grande sucesso, serviu de inspiração ao genial Alfred Hitchcock ao realizar no ano seguinte seu “modesto” Psicose. Além da famosa cena do chuveiro, que ainda mantém seu efeito, o filme trouxe o terror mais próximo ao gênero arte, fazendo com que os críticos da época “dessem o braço a torcer”, elogiando as múltiplas possibilidades que o filão ofertava, quando em mãos hábeis e talentosas.
Na Itália, um ícone chamado Mario Bava criava sua obra prima Máscara de Satã (1960), utilizando os olhos expressivos de sua musa Bárbara Steele para contar um gótico conto sobre vampirismo. Já na Polônia, o diretor Jerzy Kawalerowicz explorava o polêmico caso real das freiras possuídas pelo demônio no século 17 em um convento francês em Madre Joana dos Anjos (1961), com a obra ganhou o prêmio especial do júri em Cannes.


Ao longo da década de 60, o terror foi se fortalecendo nas mãos de criadores talentosos, em projetos originais como “O que terá acontecido a Baby Jane?” (Robert Aldrich), “As Três Mácaras do Terror” (Mario Bava), “Os Pássaros” (Hitchcock), “Repulsa ao Sexo” (Roman Polanski) e o nosso produto de exportação Zé do Caixão em “À Meia noite levarei sua alma”. Mas dois filmes, já no final da década, foram os responsáveis pelo amadurecimento do gênero que se transformaria na década seguinte definitivamente em algo, não só a se temer, como a se respeitar! A obra prima de Roman Polanski “O Bebê de Rosemary”(1968) e o audacioso “A Noite dos Mortos Vivos” (1968) de George Romero.
A década de 70 criou obras primas irretocáveis como “O Exorcista”(1973), “A Profecia”(1976), “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979), tratados de originalidade e subversão como “ O Homem de Palha”(1973), “O Massacre da Serra Elétrica”(1974), “Halloween” (1978), “Tubarão” (1975), “Prelúdio para Matar”(1975), “Carrie”(1976), “Suspiria”(1977), “Terror em Amityville”(1979) e gemas menores, mas extremamente divertidas como “O Homem Cobra”(1973), “A Sentinela dos Malditos”(1977) e “Zombi 2”(1979).
Os anos 80 foram prolíficos e utilizaram o terror “ad nauseum” em obras nem sempre memoráveis, mas que preenchiam a falta de recursos com altas doses de humor e originalidade. Filmes como “Sexta Feira 13”(1980) capitalizavam em cima do tema de assassinos seriais, trazido à tona em 78 com Halloween de John Carpenter. A partir do segundo filme da série o mundo conheceu Jason Vorhees, o primeiro assassino pop da história! Outro que obteve muita popularidade na década foi o maníaco Freddy Krueger, criado por Wes Craven no ótimo “A Hora do Pesadelo”(1984), que foi transformado ao longo de seis continuações, em uma sátira de si mesmo. O humor marcava forte presença também em “Um Lobisomem Americano em Londres”( 1981) de John Landis, até hoje considerado o melhor filme a abordar a licantropia. Outros projetos como “Gremlins”, “Criaturas”, “A Coisa”, “Bala de Prata”, “Os Garotos Perdidos”, “Brinquedo Assassino”, “Poltergeist”, “A Hora do Espanto” e “A Morte do Demônio” apostaram alto na aventura e no humor porém sem esquecer a essência do gênero.
Nem só de filmes de terror bonzinhos foram feitos os anos 80, houve espaço também para temas sombrios e adultos, como em “O Iluminado”(Stanley Kubrick), “A Troca” (1980), “Possessão”(1981), “O Enigma de Outro Mundo”(1982), “A Mosca” (1986), “Os Olhos da Cidade são Meus” (1987), “Coração Satânico” (1987), “Veludo Azul”(1986) e o genial “Hellraiser” (1987).
Após uma superexposição do horror nos anos 80, o início dos anos 90 trouxe poucos filmes memoráveis, mas vale salientar no período o retorno do escritor William Peter Blatty ao tema que o consagrou em “O Exorcista 3”( que dirigiu, baseado em seu livro: Legião), um ótimo suspense com toques de horror: “Louca Obsessão”, com uma premiada Kathy Bates, baseado em livro de Stephen King, que também criou a história da mini série: IT- Uma Obra prima do medo, com um Tim Curry no auge de seu histrionismo. O horror veio disfarçado de suspense nos ótimos “Cabo do Medo” (Martin Scorcese), “Seven”(David Fincher), “Advogado do Diabo”e “O Silêncio dos Inocentes” ( o único filme de terror a levar o prêmio principal no Oscar), que imortalizou o aristocrático canibal Hannibal Lecter, em um perfeito trabalho de Anthony Hopkins.
O vampirismo obteve sua melhor transposição em “Entrevista com o Vampiro”(1994), baseado em obra de Anne Rice.
Os melhores filmes de terror “clássico” que podemos destacar na época foram “Fome Animal”(1992) de um ainda desconhecido à época Peter Jackson e o pouco conhecido “O Castelo Maldito” (1995) de Stuart Gordon.
A reinvenção do gênero aconteceu no final da década e do outro lado do mundo, com a obra prima japonesa “Ringu – O Chamado”(1998), que logo foi copiada pelos americanos em um remake desnecessário. Os americanos quando tentam copiar, quase sempre obtém resultados péssimos, porém ao tentarem inovar, conseguem atingir picos de genialidade, como no originalíssimo “A Bruxa de Blair” (1999). Utilizando-se das ferramentas modernas de marketing na Internet, os realizadores criaram a impressão de que o que se via na tela era algo real ( um conceito já utilizado outras vezes, como em “Cannibal Holocaust”, mas com resultados pífeos), criando assim um fenômeno mundial que inventou uma nova maneira de filmar, utilizando a câmera na mão, em movimentos trôpegos e nauseantes, mas que transmitiram um senso de realidade inédito.


No mesmo ano outro fenômeno mundial assolou o cinema de terror, alçando o nome do diretor M. Night Shyamalan ao posto dos mais bem sucedidos criadores da América e provável sucessor de Hitchcock (o que atualmente se provou ser uma afirmação bastante precipitada!). “O Sexto Sentido” trazia uma história com toques de sobrenatural e mistério que cativou o público ao redor do mundo, ajudado em muito pela interpretação convincente de um jovem Haley Joel Osment.
No mesmo clima veio o excelente “Os Outros” de Alejandro Amenábar, que trazia Nicole Kidman como a protagonista de um conto aterrador sobre assombrações.
A década atual vêm se mostrando relativamente fraca em quantidade, porém com ótimas obras esparsas como “Extermínio”( Danny Boyle) e o primeiro “Jogos Mortais”, que infelizmente já se encontra na quinta seqüência, cada uma mais fraca e justificando a má fama que persegue o gênero desde sua criação.
Infelizmente a regra atual no terror é essa, se os estrangeiros criam algo maravilhoso, os americanos se apressam em copiar quadro a quadro e lançarem no cinema. Gemas como o japonês “Espíritos – a Morte está a seu lado”(2004) transformam-se em sucatas infinitamente inferiores e desnecessárias como “Imagens do Além”, que são consumidas vorazmente pelos jovens do mundo todo. Os espanhóis criaram o maravilhoso [REC], os americanos vieram em seguida e recriaram frame a frame a obra no péssimo “Quarentena”, assim como o maravilhoso e também espanhol “O Orfanato” já está com um remake americano em pré-produção.
O quadro atual do gênero é esse, obras maravilhosas são destrinchadas e “mastigadas” para um público pouco seletivo e preguiçoso. Os verdadeiros fãs do terror esperam ansiosamente novos caminhos, neste que sempre foi um filão que, por necessidade natural, teve que se reinventar e renascer das cinzas muitas vezes ao longo das décadas.




9 Comentários:

Cris disse...

Que bacana !! Relembrei vários filmes de terror que gostei muito.Vou ver se consigo pegar na locadora alguns deles.Tanto os da fase de terror como alguns da fase do "terrir"... rsrsrs...Adoro a maneira simples e direta que Otávio escreve!Agradeço por nos lembrar de tantos filmes deste gênero que,particularmente,gosto muito.
Beijos "macabros" para vcs!!! rsrsrs

dudu moraes disse...

Tenho que parabenizar você Octavio! Que maravilhoso apanhado você fez, colocando nesta perspectiva, fica até mais fácil entender o sucesso do terror no cinema. Mostra que além de uma prosa espetacular, você entende muito bem do assunto ou estudou bastante antes de começar a escrevê-lo. Adorei os vídeos também, muito bem selecionados! Parabéns mais uma vez ao Vertigo Pop!

sebastião disse...

Amo o terror!!!! Desde criança colecionava revistas em quadrinhos de Drácula!! Nem todos dão a importância devida ao tema, como vocês fizeram. Palmas de pé!!!!

rafael barros disse...

Parece até que foi combinado! Uma amiga me indicou o blog e logo no dia que vou conhecer, vocês fazem este maravilhoso especial sobre o gênero que mais sou fanático!
Que texto perfeito! Pela primeira vez leio algo sobre o tema, sem nenhum erro de informação. Parabéns ao Octávio que fez o dever de casa certinho!
Nem precisa dizer que virei fã do Vertigo,né?

talita disse...

Assumo que nunca assisti o Exorcista, morro de medo! Nem assisti o vídeo que vocês colocaram aqui!! Não é meu tipo de filme favorito, mas gostei muito da abordagem e do texto. Parabéns mais uma vez pela diversidade de temas!

jorge disse...

Preciso dizer que a inclusão de "O Castelo Maldito" e de "O Homem Cobra" provam que o crítico realmente entende do que está falando...é fácil e você vê em várias revistas pessoas discutindo filmes de terror e só falando dos medalhões, mas este texto me surpreendeu! Parabéns de verdade!!

Narayanna Andrade disse...

Excelente texto,tema abordado de maneira clara e objetiva.
É interessante ver a 'evolução' (?)
do genero,o que assusta determinado publico em determinada época e como a criatividade vem falhando quando se trata de inovações.
Muito bom texto mesmo. Parabéns!

Rafa disse...

Coisa de gênio ,falar de um assunto desses!! Caraca! Vi a maioria destes filmes (da locadora porque não sou tão velho assim.hahaha)Ri muito de alguns deles mas outros...Deram medo de verdade!!Grilei geral!!Tomara que esse Lobisomem (de fevereiro/2010!)seja arrepiante !!

tales rocha disse...

Adorei o especial!!! Fala de filmes bem obscuros e maravilhosos, que só mesmo um cinéfilo apaixonado iria conhecer e falar com tanta propriedade! Já virei fã do blog....
Octavio, você arrebenta!!

Top Ad 728x90