Top Ad 728x90

4 de ago de 2008

CONTRA TUDO E TODOS

Em “Encarnação do Demônio” , José Mojica Marins realiza seu sonho profissional e alcança a redenção pessoal.




Por Octavio Caruso

Antes de começar, peço que tirem do rosto o sorriso debochado. José Mojica Marins ri de si mesmo , sabe de suas fragilidades artísticas e pessoais, porém ele não usa isto como um “muro criativo”. Suas idéias podem soar antiquadas, mas são suas próprias, não as copiou. Um diretor que bate no peito e diz: Sou capaz! Quisera o nosso cinema tivesse mais uns dez assim...
Para se analisar sua última obra é preciso incutir algumas informações essenciais. O cinema de terror possui várias facetas , uma delas é o chamado “Gore” (horror explícito, nojento ). Mojica iniciou este tipo de cinema em 1964 com À meia-Noite levarei a sua alma. Somente em 1968, um diretor estreante chamado George Romero fez fama internacional utilizando o mesmo conceito em seu, hoje marco inquestionável do gênero, A Noite dos Mortos-Vivos. O diretor americano é respeitado e cultuado mundialmente, enquanto Mojica é alvo de críticas e menosprezo.
Parte do preconceito é causado pelo humor do diretor, que se permitiu ao longo de sua carreira utilizar o personagem Zé do Caixão em várias aparições públicas. É como se Stallone aparecesse em vários programas de TV utilizando a faixa vermelha de Rambo na cabeça.
Zé do Caixão tornou-se uma figura pública e passeou por várias mídias (quadrinhos, rádio, propagandas e atualmente um programa de entrevistas), um processo que com o tempo ajudou a banalizar o impacto que ele causava no seu público.



Em “Encarnação do Demônio”, Mojica realiza um sonho que o perseguia desde o final dos anos 60 : Terminar sua trilogia cinematográfica.
No filme, Zé do Caixão é libertado da prisão após 40 anos de confinamento. Tempo suficiente para que sua lenda percorresse cada ala do lugar e atemorizasse os que ali estavam. Livre e com a ajuda de seu fiel serviçal, o corcunda Bruno. Zé refugia-se em uma favela de São Paulo e começa a ser seguido por um secto de psicóticos.
O coveiro continua sua busca pela mulher perfeita que lhe trará a continuidade de seu sangue e em seu caminho irá se confrontar com os males da sociedade moderna: As crenças e dogmas que impedem o conhecimento e transformam as pessoas em máquinas.
Crença cega simbolizada no personagem interpretado por Jece Valadão (em seu último trabalho no cinema), que possui vários santos de madeira em sua mesa, mas que não o impedem de ser corrupto. Crítica mordaz à idolatria desenfreada que assola nosso povo.




A grande fraqueza do filme está no próprio Mojica. Ele nunca escondeu sua simplicidade e também nunca usou-a como justificativa. Sua maneira de atuar traz alguns momentos de riso involuntários, porém nada que grandes estúdios de Hollywood e seus astros já não nos tenham feito passar.
Os grandes destaques são os atores Luiz Melo e Milhem Cortaz. O primeiro aparece pouco e logo no início do filme , porém com brilhantismo dá o tom da história. Já Cortaz dá um show. Ele já chamava a atenção em Tropa de Elite, mas neste projeto, como um padre bastante diferente, sua verve cômica nos brinda com momentos inesquecíveis.
Jece Valadão, em seu último papel no cinema, entrega um antagonista de primeira linha, um policial cheio de crenças e com desejo de vingança.




Os efeitos de maquiagem são eficientes e, se não nos aterrorizam (devido a violência estar tão banalizada aos nossos olhos), também não desmerecem a obra. Umas duas cenas mais fortes e inesperadas trarão prazer aos fãs do cinema “Gore” que Mojica ajudou a criar.
Mojica utiliza-se de vários flashbacks ao longo da projeção. Vale como nostalgia e para os que nunca assistiram os filmes antigos.




Como filme de terror, “Encarnação do Demônio” alcança seus objetivos e não faz feio perante obras internacionais do mesmo gênero.
José Mojica Marins fez algo raríssimo no cinema nacional, ele criou um personagem complexo e fez fama com ele. Utilizando as nossas tradições e medos. Como autor e diretor , ele ousou “pôr a cara à tapa”, sem medo das críticas.
Possivelmente o preconceito irá continuar por aqui, Mojica continuará sendo visto pelo nosso povo, pelo seu próprio povo... como um velho louco. A história de sua fama internacional como “Coffin Joe” obterá mais um capítulo e seu nome será seguido de palmas nos festivais de cinema fantástico pelo mundo afora.
Nós continuaremos os mesmos... e para nossa sorte, ele também!!

NOTA : 7 \ 10

7 Comentários:

Top Ad 728x90