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25 de set de 2008

A FINA BOSSA DE TAKAI











Leve e delicada. Ao criar um trabalho primoroso em cima do repertório de Nara Leão, o Cd Onde Brilhem os Olhos Seus, Fernanda Takai se confunde com a saudosa diva da Bossa Nova e sua obra irretocável. Em paralelo com sua banda mineira Pato Fu, a cantora de contornos e voz suaves tal qual Nara, mostra ao Brasil toda sua bossa pop.


Vertigo Pop - Bem Fernanda, primeiro eu queria saber como foi a escolha do repertório para a produção do seu primeiro CD solo (Onde Brilhem Os Olhos Seus) e como foi a busca pela sonoridade adequada sem descaracterizar o trabalho criado pela Nara Leão.

Fernanda Takai – a seleção de repertório foi feita por e-mail entre eu e o Nelson (Motta), fazendo as nossas listas de músicas, quais a gente queria, quais as que eu me identificava mesmo com elas. E era fundamental não colocar só a Nara Bossa Nova, que foi a Nara que ficou mais conhecida, era pra mostrar a Nara de todos os universos que ela cantou. Era muito difícil porque são mais de 20 discos e um repertório impecável de cada um deles. Então pra pegar o que era a melhor música do Chico Buarque, dos novos compositores nordestinos que ela lançou ou dos compositores de morro, era sempre difícil. Mas a gente foi escolhendo as músicas que de cara estavam na minha lista e na dele e então a gente foi gravando. A música “Diz Que Fui Por Aí” (primeira música de trabalho) era uma música que era óbvia que a gente tinha que colocar, porque foi uma música que deu justamente essa virada dela, de ter gravado o primeiro disco onde todo mundo achou que ela ia gravar só Bossa Nova e ela gravou Zé Ketti, gravou Nelson Cavaquinho. Ela foi uma cantora muito inteligente ao longo da vida dela, ela sempre apresentou novos autores e nunca ia pra onde as pessoas pensavam que ela fosse. Sempre dava uma guinada. Foi a primeira voz consagrada da MPB que gravou Roberto e Erasmo. E era essa a idéia. A gente lembrar da Nara como uma grande intérprete. E o jeito que a gente foi construindo os arranjos foi muito fiel até a minha própria escola no Pato Fu, porque a nossa escola é o Pop Rock.
O que eu queria fazer era mudar a estética sonora das canções, respeitando as composições. Mexemos na estrutura das músicas e tudo ficou suave, muito delicado, que é uma coisa que a Nara sempre fez. Por mais que ela gravasse coisas diferentes também, o próprio jeito dela cantar já remete a isso. E eu cantei exatamente do jeito que canto nos discos do Pato Fu.
É um disco que não rompe com a minha trajetória de cantora de uma banda pop rock. Só acentua um pouco mais a delicadeza, a suavidade que tem nesses meus 9 discos com a Banda (o Pato Fu tem 15 anos de carreira).

VP – E nessa busca pelo repertório, o que mais te surpreendeu dentro da trajetória da Nara?

FT Eu conhecia a Nara até bem porque antes do Nelson me convidar eu já tinha discos dela, já tinha lido a biografia do Sérgio (Cabral – o pai, não o governador) há muito tempo, logo quando saiu. Eu e o Nelson não nos conhecíamos, eu conhecia o trabalho dele e ele o meu, mas nunca tínhamos nos encontrado e ele de longe achava que eu tinha alguma coisa a ver com a Nara. E quando ele me chamou eu já sabia um pouco da história dela.
Quando eu fui fazendo o disco e me aproximando dos amigos da Nara, o Menescal inclusive toca no disco, a filha da Nara, Isabel, teve em Belo Horizonte comigo, ouviu as coisas antes de o disco sair e outros amigos contando coisas dela, eu me surpreendi em saber que ela, além de uma grande artista, era uma pessoa muito correta, digna. E é difícil você numa carreira artística longa, apesar de ela ter morrido muito jovem ela começou também muito jovem, passar por essa vida sem deixar inimigos e a Nara sempre foi cuidadosa, ela nunca deixava as coisas sem ser conversadas, era uma pessoa muito doce, uma artista muito correta, inteligente que gostava de discutir todos os passos da carreira dela.
Eu fico feliz de ter feito um disco dedicado a uma pessoa assim, porque além da música era um ser humano da melhor qualidade. Muitos dos ídolos são gênios, deixam ótimas discografias, mas tem uma vida caótica e esquisita. E ela não. Sempre foi uma pessoa serena. Até com a doença dela ela trabalhou até o fim, até quando foi possível, ela mesma se impulsionava pra frente, pra produzir, pra gravar discos novos.

VP - A participação do Nelson Motta ficou limitada a escolha do repertório?

FT Ele fez a direção artística, quer dizer, a grande idéia que veio dele foi o motor dessa história toda. A produção musical mesmo foi feita pelo John (Ulhoa – Marido e parceiro no Pato Fu).
A direção artística é essa mesmo. De dar o norte de tudo que a gente fazia. Por exemplo, a gente ia mandando pra ele por MP3 porque eu moro em BH e ele aqui no Rio (essa entrevista foi feita na ocasião da participação da cantora no Forum Fnac Barra no Rio de Janeiro) e ele fazia as considerações, falava se tava muito acelerado, se eu devia abrir voz aqui ou ali. Então ele fazia o ajuste fino da produção. Ele é muito sensível, muito bem humorado e eu também sou. É tão bom trabalhar com gente descomplicada e ele é super descomplicado.
Isso só pôde acontecer a distância e na época nós não tínhamos gravadora, patrocínio, lei de incentivo, não tínhamos nada. A gente fez sozinhos, bancando do próprio bolso, depois é que o disco virou um grande sucesso e eu não dava conta de vender disco (risos).

VP - E você acabou fazendo um desfile do Ronaldo Fraga em cima do repertório da Nara...

FT É. O Ronaldo é meu grande amigo, já fiz outras trilhas pra ele. Eu tava fazendo esse disco em segredo e aí um dia fui jantar na casa dele e mostrei pra ele. Já tinha todo mundo bebido vinho na festa (ela ri nesse momento) e ele falou: “Gente, tá lindo, maravilhoso”. E aí ele tinha um desfile sobre a Nara programado para 2009, que é o aniversário de 20 anos da morte dela. Então ele antecipou esse desfile para o ano passado, quando eu cantei ao vivo lá. A repercussão foi enorme, foi muito bacana e até ajudou mesmo na história do disco. Foi uma coisa meio sem querer, não foi programado como o disco também não foi.

VP – E como tem sido a receptividade do público a esse trabalho? Parece que tem sido boa...

FT Tem. Tanto do público que me conhecia do Pato Fu, quanto o público que já tinha ouvido falar de mim, mas nunca tinha ouvido um disco meu. Todo mundo pensa que já sabe quem eu sou até o momento que você faça uma coisa com um repertório. Eu transitava no universo pop rock com o Pato Fu, claro que nesse universo todo mundo me conhece, toda a crítica me conhece. Mas lançando esse disco com repertório de MPB, mesmo que seja um disco pop, com arranjos modernos e tudo mais, isso abre uma possibilidade. Então gente que nunca escreveu sobre mim começou a escrever, pessoas que nunca compraram o disco compraram e gente que nunca tinha me assistido ao vivo tem ido assistir. Isso depois desse tempo todo de carreira, quer dizer, abre uma etapa nova de trabalho.

VP – De repente conquista novos fãs...

FT Sim. Espero que as pessoas que me conheceram agora fiquem curiosas em saber quais são as minhas músicas, as coisas que eu escrevo no Pato Fu. Fico feliz em saber que os fãs da Nara também começam a me ouvir por curiosidade, pra saber quem é essa pessoa que fez um disco dedicado a um artista de que gostam. Acho que a maioria gostou, não tive nenhuma crítica negativa.

VT - Esse foi seu único vôo solo ou pretende fazer outros mais autorais?

FT Eu não sei. As músicas que eu faço eu quero gravar no Pato Fu. Acho que geralmente quando um vocalista começa a gravar um disco solo autoral é porque não tá encontrando espaço na sua banda. Por enquanto eu tenho esse espaço no Pato Fu. Não sei o que vou fazer ou se vou fazer. Sei que o próximo passo vai ser o registro dessa turnê em DVD com o repertório do disco com algumas outras coisas.

VT – E como tá o Pato Fu?

FT a gente tá fazendo as duas coisas, acabei de voltar do Japão, fiz três shows do Pato Fu e um meu. Se você for olhar a nossa agenda tem show do Pato Fu, show meu. Nós estamos fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.



Agradecimentos: Fnac Barra

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