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8 de mar de 2009

WATCHMEN: ENTRE O BRILHANTE E O VISIONÁRIO



Em uma adaptação que beira o brilhantismo, Zack Snider surprende ao levar as telas de cinema o clássico dos quadrinhos Watchmen

Por Octavio Caruso

Quando o roteirista Alan Moore e o desenhista Dave Gibbons se uniram no final da década de 80, para realizarem a série composta de 12 edições “Watchmen”, talvez não imaginassem o efeito que sua obra causou entre os fãs da nona arte, nem as conseqüências advindas de sua desconstrução de um tema tão antigo.
O cenário em Watchmen não era nenhuma cidade fictícia, como Metrópolis ou Gotham City, a trama se desenrolava ao longo de 5 décadas da história americana, utilizando-se de personagens reais, como o presidente Nixon e eventos como a guerra do Vietnã. Daí você pode me contestar, dizendo que o Homem Aranha de Stan Lee também se passa em um mundo real com referências reais. A diferença reside na total ausência de clichês do gênero, uma subversão dos conceitos criados e pasteurizados após a criação do mítico Super-Homem por Jerry Siegel e Joe Shuster.
Os personagens em Watchmen não são heróis nem vilões, todos compartilham qualidades e defeitos, podendo um herói tentar estuprar sua colega de equipe e um vilão megalomaníaco tentar trazer a paz para um mundo pleno em conflitos.

O cenário é um mundo onde as pessoas mais capacitadas, seja fisicamente ou intelectualmente, ousaram combater o crime, influenciados pelos heróis criados nos quadrinhos (uma capa da edição de estréia de Superman vista em um dos quadros, ilustra o fato). O único que possui superpoderes é um cientista nuclear vítima de um acidente em seu laboratório, que torna-se um deus que pode controlar a matéria e ver seu próprio futuro a todo o instante. Com o codinome de Dr. Manhattan (vivido por Billy Crudup), torna-se a principal arma do governo americano na guerra do Vietnã. O homem-Deus se distancia de sua humanidade à medida que vai perdendo total interesse pelos seres humanos.
Questões filosóficas impossíveis de se resumir em poucas linhas, mas que foram capazes de trazer o interesse dos adultos em ler a história na época.

Desde sua estréia, Watchmen sempre foi vista como uma saga impossível de se adaptar para o cinema. Devido a suas várias sub-tramas e personagens multi-facetados, além de uma violência gráfica fora do comum em uma história em quadrinhos, a obra estava fadada ao conhecimento apenas dos fãs da nona arte. Agora, duas décadas depois, um estúdio de cinema bancou o desafio e transportou com fidelidade absurda a trama para as telas.
O diretor Zack Snyder (de “300”), inicialmente foi considerado impróprio para adaptar a gama de informações contidas na mini-série e fazê-las compreensíveis tanto para o público que havia lido os quadrinhos, quanto para os cinéfilos que nunca haviam ouvido falar de Alan Moore.
Após assistir o filme de quase 3 horas, posso garantir que Snyder realizou um trabalho hercúleo. Aos que leram as 12 edições da revista, é possível ver, trama a trama, página a página, os acontecimentos mais importantes de Watchmen passando em frente aos olhos. Com riqueza de detalhes e total imersão na concepção de Alan Moore. Uma estética visual requintada que não atrapalha o conteúdo, realçando questionamentos e transpondo seqüências que, eu mesmo como leitor, acreditei serem impossíveis de se imaginar em um filme. O filme inicia na década de 80 com o assassinato do “Comediante” (Jeffrey Dean Morgan), um dos integrantes do grupo de vigilantes que agia nos anos 60, defendendo o “American way of life”. Aposentado e bêbado, perseguido pelos erros do passado e sem a possibilidade de redenção.
Sua morte inicia uma investigação liderada pelo misterioso encapuzado “Rorschach”( Jackie Earle Haley), que acredita estar acontecendo uma caçada aos heróis uniformizados de outrora. Investigando a morte do ex-colega de equipe, o encapuzado descobre uma trama maior, com objetivos muito mais filosóficos que a simples dominação mundial pelo vilão, tema comum nas histórias em quadrinhos.
Assim como no filme de Akira Kurosawa, Rashomon, ao presenciarem o funeral do comediante, cada um de seus ex-colegas relembra fatos que, juntos, acrescentam elementos importantes na criação da persona do falecido. São seus atos que o determinam.
Os demais personagens, cada um com uma história de vida mais rica que a outra, são interpretados de maneira fiel. Impossível explicar tudo, porém os eventos mais importantes e determinantes são mostrados com exatidão.
O único ponto fraco neste quesito, o personagem Ozymandias, o homem mais inteligente da Terra é vivido por Matthew Goode, um ator jovem demais, que não consegue criar a aura de maturidade necessária, vista nos quadrinhos.
A pergunta que vocês querem ver respondida nesta crítica, sobre a qualidade do filme e fidelidade à obra original, posso responder seguramente. Não poderia ser feita uma adaptação melhor. Não é um filme para se ver uma vez só, são muitas sub-tramas. Como costumo dizer, o cinema é uma soma de fatores, o filme em si, mais a experiência de vida (e cultura) de quem o assiste. Neste filme, o diretor não “pega leve’ com seu público, demanda atenção. A pessoa que for ao cinema esperando um filme de super-heróis cheio de ação vai se desapontar cruelmente. Watchmen é grandioso e não é de fácil “digestão”. Ao sair do cinema nos sentimos abalados pela quantidade de informações novas e que não esperávamos. Os “milhões” de clichês aos quais estávamos aguardando, não foram mostrados. Não existem mortes seguidas por um último suspiro revelador, nem uma batalha final espetacular em CGI.
Uma obra que dividirá opiniões, será amada e odiada por muitos. Eu amei.







Trailer - Watchmen - O Filme:



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