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7 de nov de 2009

TALENTO MUITO ALÉM DAS PROMESSAS


Mesmo esquecido pelo cinema brasileiro, Anselmo Duarte deixa seu legado para as próximas gerações

Hoje em dia, mesmo com os avanços realizados no cinema nacional, ainda não podemos dizer que alcançamos uma estabilidade criativa em nossos projetos. Muitos diretores ainda não aprenderam a linguagem da tela grande, ainda muito presos ao estilo de filmagem das novelas, com seus planos em zoom e outros vícios. Porém existem cineastas como Fernando Meirelles que além de serem apaixonados pela sétima arte, sabem dar o valor merecido aos gênios que vieram antes, sem patriotismo burro e arrogância.
Antes de Meirelles, vieram Glauber Rocha, José Mojica Marins, Walter Salles, todos diretores-criadores, com estilo próprio. Mesmo que não apreciemos os filmes deles, temos que respeitar sua competência.
Porém antes de todos eles, em uma época onde o Brasil nem constava no “mapa” do cinema mundial ou aparecia apenas como curiosidade cult, houve um homem que desbravou mares nunca antes navegados e nos deixou um legado chamado O Pagador de Promessas.
Em 1962, Anselmo Duarte, ator de filmes como Sinhá-Moça e Aviso aos Navegantes resolveu dirigir uma história a frente de seu tempo. Além de dirigir, ele roteirizou (baseado em obra de Dias Gomes) a saga de um homem humilde, Zé do Burro ( Leonardo Villar) que, após ver seu melhor amigo, o burrinho adoecer, precisa cumprir uma promessa feita em um terreno de candomblé de carregar uma pesada cruz por um longo caminho e deixá-la dentro da igreja de Santa Bárbara, onde a oferecerá ao padre local. Sempre acompanhado por sua mulher Rosa (Glória Menezes), o homem descobre que a missão não é fácil e que o padre não deixará que sua cruz entre na igreja, causando uma comoção imensa na pequena cidade.
Com um roteiro ousado e muito inteligente, Anselmo Duarte realizou um feito até hoje não repetido, trouxe ao Brasil a Palma de Ouro no Festival de Cannes, além do prêmio especial do júri no Festival de Cartagena na Colômbia, o Golden Gate de melhor filme no Festival internacional de San Francisco e foi indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar.
Ao voltarem ao país, o diretor e sua equipe foram recebidos com um desfile público em carro aberto. O filme não apenas levou o prêmio máximo, ele mereceu ganhar.
Infelizmente a carreira de Anselmo após o filme foi prejudicada por divergências ideológicas e inveja no próprio meio profissional e ele não obteve o mesmo sucesso.
Na madrugada deste Sábado, Anselmo Duarte morreu após ter sofrido um acidente vascular cerebral hemorrágico. Seu legado para o cinema nacional é eterno, mesmo com a fraquíssima memória do povo que tende a somente valorizar o novo, esquecendo-se assim de quem “deu a cara a tapa” muito antes, quem ousou sem muito patrocínio, sem o apoio de uma rede Globo.
Anselmo Duarte e seu “O Pagador de Promessas” é uma lição a todos os que pretendem fazer cinema no país e aos que ainda hoje, quase 50 anos depois, colocam a culpa pelo pouco público na falta de investimento. Anselmo Duarte ensinou como um brasileiro pode ir sozinho a Cannes e trazer o prêmio máximo: “Faça melhor!”

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